quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

DOMINGOS OLÍMPIO - LUZIA-HOMEM

1. DADOS BIOGRÁFICOS
DOMINGOS OLÍMPIO BRAGA CAVALCANTI, cearense de Sobral. Nasceu em 18 de setembro de 1850 e faleceu em 06 e outubro de 1906, no Rio de Janeiro. Advogado e jornalista.
Por sua composição "Luzia-Homem", publicada em 1903, é considerado um clássico, enquadrando-se no gênero "Ciclo das Secas", da Literatura Nordestina. Compôs várias peças teatrais, tendo se realçado também na carreira jornalística. Fundou e dirigiu a revista "Os Anais", onde publicou o romance "O Almirante", deixando incompleto "Uirapuru", também romance.
Alguns de seus romances são realistas, de cunho regionalista como se observa nos tipos e cenas que descreve. Sua prosa é exuberante, dúctil e pitoresca. É considerado o precursor do moderno romance brasileiro.
RESUMO DO ENREDO
O cenário é o interior do Ceará, nos fins de 1878, durante uma grande seca. Na construção da penitenciária de Sobral, pequena cidade do Ceará, muitos retirantes trabalham para não morrerem de fome.
Uma linda morena chama a atenção de todos. É Luzia que faz serviços de homem para poder receber ração dobrada, em virtude de ter a mãe doente em casa. Seu corpo é esbelto e feminino e, acostumada que fora na antiga fazenda do pai a trabalhar em serviços pesados, tinha muita força, fazendo o que muitos homens não podiam. Por isso recebera o apelido de Luzia-Homem. Recatada e silenciosa, não tinha muitas relações de amizade. No entanto, o soldado Crapiúna era apaixonado ou pelo menos atraído fisicamente com violência por Luzia. Esta não correspondia aos seus cortejos, desprezando-o e tornando o soldado cada vez mais obcecado por ela.
Tinha Luzia um amigo muito leal e respeitoso chamado Alexandre, rapaz bonito e educado, que trabalhava no armazém da Comissão. Teresinha era outra amiga de Luzia. Moça branca, de cabelos castanhos, que há muito havia fugido de casa e se prostituíra.
Certo dia passando com Teresinha pelo armazém, viram um tumulto e ao se informarem ficaram sabendo que Alexandre fora preso por causa de um grande roubo que houvera no almoxarifado do armazém.
Luzia e Teresinha, acreditando na inocência de Alexandre que estava na prisão aguardando o julgamento, levavam-lhe comida todos os dias.
Tempos após, Teresinha, tendo ido se esticar na rede, vê nos fundos do quintal o soldado Crapiúna abrindo um baú e apanhando uma bolsa de couro de onça contendo dinheiro. Teresinha passa a desconfiar do soldado, o mesmo acontecendo com Luzia a quem Teresinha contara o ocorrido. Outro dia Luzia encontra Quinotinha que lhe diz ter ouvido Crapiúna confessando ser o autor do roubo a uma mulher que o amava. Luzia, certa da verdade, antes de falar com Teresinha foi a te o Delegado e lhe contou tudo, o qual não acreditando muito, foi até o quintal da casa de Teresinha encontrando o baú com as coisas roubadas do armazém.
No julgamento, Alexandre foi absolvido e Crapiúna expulso da corporação. O ex-soldado, vendo a felicidade de Luzia, jurou vingar-se.
Teresinha encontra a família que a estava procurando pelo sertão e vão morar juntos numa casa alugada. Passados esses acontecimentos, Alexandre propôs a Luzia irem morar na serra, levando a mãe dela e a família de Teresinha. Luzia, que começara a despertar para o amor de Alexandre que já a amava silenciosamente há muito tempo, fica feliz e começam a arrumar as trouxas.
Alexandre partiu no dia seguinte com a família de Teresinha para escolherem a casa.
Teresinha, Luzia, Josefina (mãe de Luzia), Raulino e outros quatro homens foram na tarde do dia seguinte,
Teresinha saiu na frente para ajudar os outros na arrumação da casa. Os cinco homens carregavam a rede com D. Josefina e Luzia logo atrás. Ao chegar à serra, Raulino indicou um atalho à Luzia dizendo que eles levariam a rede com D. Josefina pela estrada. Luzia foi seguindo os passos de Teresinha no barro.
Andou ao redor de um morro até que chegou a um rio cheio de pedras e de água pura. Quando ia atravessá-lo ouviu um grito. Olhou a sua esquerda e viu Crapiúna, que havia fugido da cadeia e que estava segurando Teresinha pelo braço. Luzia atravessou o rio e gritou:
- Solte a moça, seu Crapiúna!
- Até que enfim nos encontramos, disse o bandido.
Largou Teresinha e avançou sobre Luzia, puxando-a e rasgando toda sua roupa. No desespero, Luzia reagiu cravando as unhas no rosto de Crapiúna, deixando desfigurado e tonto. Crapiúna arrancou uma faca e cravou-a no peito de Luzia. Crapiúna mesmo cambelando, foge e desaparece no penhasco.
Neste instante chega Raulino que vê Teresinha horrorizada e, olhando a sua direita, aproxima-se de Luzia, já com os olhos arregalados e sem vida.

3. OBRAS DO AUTOR
• Luzia Homem (1903), romance naturalista
• A Perdição (1874), teatro
• Rochedos que Choram, teatro
• Túnica Nessus, teatro
• Tântalo, teatro
• Um Par de Galhetas, teatro
• Os Maçons e o Bispo, teatro
• História da Missão Especial de Washington, relato
• A Questão do Acre, história
• A Loucura na Política, biografia
• Domitila, teatro
• O Negro, romance

4. CARACTERÍSTICAS DA OBRA
A importância desse romance reside no fato de ser ele um dos grandes romances regionais de um estilo de época que floresceu na segunda metade do século XIX: O naturalismo. Estilo marcado pela objetividade, concepção de amor baseado na atração sexual, com ênfase nas características negativas das personagens, o Naturalismo legou-nos romances em que é possível perceber a grande influência de Darwin e A Origem das Espécies: o meio ambiente condiciona todos os seres, deixando sobreviver apenas os mais fortes. Por isso, a natureza de todos os seres, inclusive a do homem, seria determinada por circunstâncias externas. A vida interior é reduzida a nada.
Em Luzia-Homem, tais pressupostos são nítidos, basta que o leitor observe a caracterização e trajetória das personagens. Luzia, por exemplo, está fadada a sucumbir, pois num jogo de forças com o vilão, de nada valeu sua força física, assim como não valeram seus bons sentimentos e até a doçura de alma escondida atrás de tantos músculos. Tornou-se, portanto, vítima da fatalidade das leis naturais, que a impediam de ter outro destino. A morte como desfecho vem coroar esse determinismo, pois é a única saída possível para a personagem. Não há a menor possibilidade, nos romances desse estilo, de ocorrer um acaso ou ‘‘milagre’’, comuns em romances românticos, em favor da personagem.
Crapiúna, por sua vez, tem sua trajetória iniciada pelo interesse por Luzia, porém, um interesse que vai, aos poucos, se transformando em um caso patológico. Portanto, seu comportamento é coerente com sua obsessão e não há limites que o impeçam de realizar seu intento: ter Luzia a qualquer preço, não porque sentisse amor profundo, mas porque sua atração era sexual, cada vez mais atiçada pelas recusas da moça. Ele é, então, um personagem previsível, já que, pela lógica naturalista, seu destino também estava determinado.
Em tudo, Domingos Olímpio foi fiel à tendência literária da época: a rudeza e brutalidade das cenas, a crueza dos episódios, o entrechoque dos instintos, a intensidade das forças desencadeadas. A cena final do romance é exemplo perfeito dessas características: a violência que Crapiúna usa contra Terezinha e Luzia é assustadora. A reação de Luzia é ainda mais assustadora: arranca com as unhas um dos olhos de Crapiúna e morre com aquele macabro troféu entre os dedos da mão direita enquanto que, sobre o peito, misturados ao sangue que jorrava, murchavam os cravos que lhe dera Alexandre. Mesmo não sendo o ponto máximo do Naturalismo, é, sem dúvida, um dos mais bem realizados romances brasileiros.

Anna Cristina Torres é professora de Língua Portuguesa do Colégio Marista de Brasília
ESPAÇO:
SOBRAL, sertão do CEARÁ.
MORRO DO CURRAL DO AÇOUGUE – onde era construída uma penitenciária estadual.

TEMPO:
SÉCULO XIX – retrata a seca de 1878.

NARRADOR:
NARRADOR em 3ª PESSOA – observador.

CLASSIFICAÇÃO DO ROMANCE:
Romance NATURALISTA, com certos traços ROMÂNTICOS. Principalmente na dúbia composição de Luzia (que reúne qualidades físicas de homem e a beleza plástica de mulher) e Teresinha (prostituída, mas sensível e fiel amiga de Luzia). E nas almas puras e generosas de Alexandre e Raulino.
Considerado um clássico da LITERATURA NORDESTINA, parte no gênero CICLO DAS SECAS.
Também pode ser considerado como romance REGIONALISTA.

ANÁLISE DA OBRA
Publicado em 1903 e considerado um clássico do gênero Ciclo das Secas, da Literatura Nordestina, Luzia-Homem é um exemplo do Naturalismo regionalista. Marcado pela fala característica dos personagens, Luzia-Homem mantém duas características clássicas do Naturalismo por toda obra: o cientificismo na linguagem do narrador e o determinismo (teoria de que o homem é definido pelo meio). A obra também se vincula ao realismo sertanejo, - que alguns chamam de regionalismo - apresentando com tintas carregadas o flagelo da seca em sua região, ao mesmo tempo em que enfoca a força física e moral da sertaneja Luzia, criatura intermediária entre dois sexos, o corpo quase másculo numa alma feminina e que termina assassinada por um soldado quando se dispunha a amar ternamente outro homem.

TEMÁTICA DA OBRA
A obra tematiza a violência e o sadismo que florescem como literatura naturalista. Há nuances de Romantismo na morosidade da descrição das paisagens, onde a natureza, às vezes, é madrasta principalmente por causa da seca. Explora a duplicidade da personagem principal, ela é bonita, gentil e retirante da seca, mas também tem força descomunal. No romance, Luzia integra um grupo de retirantes, e sua figura forte e personalidade marcante logo atrai a atenção dos homens que disputam o seu amor.

CRENDICES E SUPERSTIÇÕES
As personagens do romance são marcadas pelas crendices e superstições, santos, orações, rezas, promessas, novenas, o Lunário Perpétuo, são sempre mencionados.
Como é o caso de Teresinha e Luzia que pagam 3 mil réis para que uma curandeira descubra o verdadeiro ladrão do armazém para que Alexandre possa ser libertado. Para isso, Luzia vende seus cabelos à mulher do promotor, que por bondade os compra por 5 mil réis, contanto que Luzia os mantenha em sua própria cabeça, cuidando sempre deles.
“Passou o dia preocupada, e procurando espairecer com desvelos à mãe, mais acalmada com a poção de iodureto de potássio, o venenoso remédio, que, na opinião da Seridó, fazia apodrecerem os ossos, caírem os dentes e pôr o estômago em carne viva, quando seria mais eficaz a purga de mel de abelha e um emplastro de sabão da terra com um pinto pisado vivo; ou com o vomitório de cardo-santo, chá de erva-doce para desempachar o ventre, e raiz de pega-pinto por causa da retenção de urinas.”

“Procurara, conto dissera, Rosa Veado para rezar o respônsio; esta, porém, exigira dinheiro para comprar duas velas para o santo, luz sagrada, indispensável para o êxito do sortilégio, circunstância que ela não revelou a Luzia, por querer que o descobrimento do criminoso fosse devido, exclusivamente, à sua iniciativa.”

LINGUAGEM REGIONALISTA
A linguagem mescla o português padrão, culto na voz do narrador com as expressões regionalistas usadas pelas personagens do romance.
“É menas verdade, interrompeu Crapiúna”

ZOOMORFISMO e DESCRIÇÕES NEGATIVAS
Essa característica muito comum no Naturalismo em que as personagens são sempre aproximadas dos animais é bastante presente no romance. Bem como o enfoque de aspectos negativos das personagens e da paisagem.
“... esquálidas criaturas de aspecto horripilante, esqueletos automáticos, dentro de fantásticos trajes, rendilhados de trapos sórdidos, de uma sujidade nauseante, empapados de sangue purulento das ulceras, que lhes carcomiam a pele até descobrirem os ossos, nas articulações deformadas”.
“O formigueiro de retirantes”

TRAÇOS ROMÂNTICOS
Em alguns momentos as descrições mais belas e saudosistas remetem ao estilo romântico.
“Nessa evocação saudosa de um passado morto, ressurgiram as adoráveis peripécias da infância, os episódios da vida de adolescente na penumbra da puberdade, salteada pelas primeiras investidas dos instintos; as festas, os Sãos Gonçalos, os Bumba-meu-boi, as vaquejadas, as caçadas de avoantes nos bebedoiros, a colheita dos ovos que elas, abatendo-se em nuvens sobre as várzeas, punham aos milhões, junto dos seixos, das toiceiras de capim, ou nas barrocas feitas, durante o inverno, pelas patas do gado.

PERSONAGENS
Luzia, a protagonista, é do tipo mulher masculinizada, de músculos fortes, mas de sensibilidade aguçada. É taciturna, solitária, boa, corajosa, firme de caráter, constituindo-se num "símbolo da mulher cearense, heróica na sua luta contra o flagelo da seca, da emigração e da prostituição - como interpretou Abelardo Montenegro".
“Ela, animando Alexandre com a protetora carícia de um olhar inefável, voltou-se resoluta e calma para os circunstantes. Do desalinho das roupas, o lençol pendido do braço a arrastar pelo chão, o cabeção de renda emoldurando o seio nu e palpitante, as desgrenhadas madeixas a lhe caírem em ondulações fulvas de serpentes negras; dos olhos, do gesto e da voz, um concerto de convicção e firmeza, irradiava sobrenatural encanto, empolgando o auditório, subjugado pela esplêndida e fascinante exibição da força e da beleza, harmonizadas naquela admirável criatura.”
Crapiúna: mau soldado, excessivamente sensual e inconsciente. Obcecado por Luzia, faz de tudo para conquistá-la.
Teresinha, frágil, loira, prostituída, vítima de terceiros, fugiu de casa com seu primeiro amor Cazuza, que em seguida morreu. Tornou-se então prostitua, viveu com outro homem, Seu Berto, depois abandonou-o fugindo com outro rapaz chamado Bentinho. Mas quando estava com Bentinho sentia saudade de Berto, até que Seu Berto a encontra, e numa luta com Bentinho, Berto é morto pelo rapaz. Arrependida, Teresinha esfria seu relacionamento, indo embora e voltando à prostituição.
Alexandre, apaixonado por Luzia, homem de coragem, justo, generoso, trabalhador, acusado falsamente de roubar o armazém do povoado.
Dona Josefina (Tia Zefa): mãe de Luzia, velha e entrevada, jogada numa cama, só se recupera mais ao final do romance, após tomar o medicamento receitado pelo médico, do qual ela sempre desconfiava. Sendo que atribuíra sua cura a rezas e santos.
Raulino: vaqueiro corajoso e de bom coração, amigo de Luzia-Homem. Eternamente agradecido a ela, pois a moça o salvara de um touro, quando o sertanejo domava e havia caído. Raulino também era exímio contador de causos.
D. Matilde: esposa do promotor, generosa, compra os cabelos de Luzia para ajudá-la.
Gabrina: apaixonada e desprezada por Alexandre, se alia a Crapiúna para botá-lo na prisão. Para isso mente que recebera presentes de Alexandre. Depois de descoberta a farsa, é presa.
Quinota: menina esperta que é salva por Alexandre quando Crapiúna a perturbava. Amiga de Luzia, revela para a moça a armação de Crapiúna e Gabrina.
Chica Seridó: dona do prostíbulo.
Belota: soldado que fazia jogatinas em sua casa e é preso junto com Crapiúna, por incentivar jogo ilegal.
Rosa Veado: parteira, rezadeira e curandeira.
Sargento Carneviva: subdelegado, responsável pela prisão de Crapiúna e Belota.
Seu Marcos: pai de Teresinha, homem que já fora rico e que quando reencontra a filha não a perdoa por ter fugido e se tornado prostituta.
D. Clara e Maria da Graça: mãe e irmã de Teresinha, que quando a encontram choram de felicidade.
Capitão Francisco Marçal: homem mais popular da terra, latifundiário, simpatizante de Luzia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O principal defeito do romance Luzia-Homem consiste no "desnível entre a concepção e a execução, na grandeza daquela, na franqueza desta", como escreveu Lúcia Miguel Pereira. Na verdade, carece o romance de simplicidade de expressão. A linguagem usada é, muitas vezes, arrevesada e imprópria, prejudicada ainda por excessos retóricos. Por fim, Domingos Olímpio é um autêntico romancista regionalista com Luzia-Homem oferecendo-nos "uma visão retrospectiva da condição humana e social do sertanejo, lutando pela sua sobrevivência e a de seus próprios valores no meio, que o castiga, mas com o qual ele se identifica no sofrimento e na alegria"

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